Veterinários e o mercado além da clínica: por que ainda estamos deixando oportunidades escaparem?

Imagine um hospital público em pleno funcionamento, onde médicos humanos correm de um lado para o outro, exames são solicitados e diagnósticos são fechados. Agora pense: quantos veterinários trabalham ali? Poucos? Nenhum? A resposta pode surpreender. Embora a legislação e a necessidade exijam a presença de médicos veterinários em diversas áreas da saúde pública, muitos desses profissionais sequer cogitam ocupar esses espaços. O resultado? Postos estratégicos sendo preenchidos por outras profissões, enquanto a Medicina Veterinária ainda luta por reconhecimento fora do ambiente clínico tradicional.

A verdade é que a profissão evoluiu, mas muitos profissionais continuam enxergando o mercado de trabalho de maneira limitada. O médico veterinário não deveria ser lembrado apenas quando se fala em cães e gatos. Ele é essencial para a segurança alimentar, para o controle de zoonoses, para a vigilância epidemiológica, para a preservação ambiental e até para o desenvolvimento de novas tecnologias na saúde. No entanto, poucos fazem questão de se inserir nesses setores – e, aos poucos, essas funções vão sendo ocupadas por outros especialistas, muitas vezes com menos conhecimento técnico sobre os temas.

Nos últimos anos, a pandemia de COVID-19 escancarou a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Vírus de origem zoonótica já eram um problema conhecido pelos médicos veterinários, mas a falta de integração desse conhecimento nos sistemas de saúde retardou respostas e custou vidas. Se a abordagem de Saúde Única fosse uma prioridade real, veterinários estariam muito mais presentes nas estratégias de prevenção e controle de surtos epidemiológicos. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, a categoria continua subaproveitada em um cenário onde sua participação deveria ser essencial.

A situação se repete no setor de segurança alimentar. Teoricamente, todo alimento de origem animal consumido pela população deveria passar por um controle rigoroso supervisionado por médicos veterinários. Na prática, a inspeção de produtos está cada vez mais terceirizada, e o profissional que deveria ser a autoridade máxima na garantia da qualidade desses produtos vê seu espaço ser reduzido, seja pela falta de políticas públicas eficientes, seja pela própria ausência de profissionais preparados para reivindicar esses postos.

A Medicina Veterinária é uma profissão que exige atualização constante, mas será que estamos investindo tempo suficiente em áreas emergentes? Tecnologias como inteligência artificial e monitoramento remoto de saúde animal são tendências que já estão transformando o setor agropecuário, a pesquisa e até mesmo a clínica veterinária. Mas, novamente, há uma lacuna entre o que poderia ser ocupado por veterinários e o que de fato é.

O problema não é a falta de oportunidades. Pelo contrário, há um vasto campo de atuação esperando para ser preenchido. O que falta é a mudança de mentalidade dentro da própria profissão. Se os médicos veterinários não começarem a ocupar os espaços que lhes pertencem por direito – e por competência –, a Medicina Veterinária continuará sendo vista como uma profissão limitada, enquanto outros especialistas ganham protagonismo em áreas que sempre deveriam ter sido nossas.

O mercado não está saturado. O que está saturado é o conformismo.

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